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Archive for the ‘I Ching’ Category

27 Nutrição

“AS BORDAS DA BOCA.

A perseverança traz boa fortuna.”

Quando se nutre aquilo que é correto, a boa fortuna surge. “Preste atenção à nutrição”, isto é, preste atenção àquilo que alimenta um homem. “Aquilo que o homem procura para encher sua própria boca”, isto é, preste atenção àquilo com que um homem se alimenta. O céu e a terra alimentam todos os seres. O santo sábio alimenta os homens de valor e abrange, assim, o povo inteiro. Verdadeiramente grande é a época de PROVER ALIMENTO.

Ao se prover cuidados e alimentos é importante que as pessoas certas sejam atendidas e que nossa própria nutrição proceda de modo correto. Para se conhecer alguém é necessário apenas observar a quem ele dispensa seus cuidados e quais os aspectos de seu próprio ser que cultiva e alimenta. A natureza alimenta todos os seres. O homem superior cultiva e promove os homens capazes, para, através deles, velar por todos os homens. Mencius comenta a respeito: “Para verificarmos se alguém é um homem superior ou inferior, só precisamos observar a que parte de si ele atribui uma especial importância. O corpo tem partes superiores e inferiores, importantes e secundárias. Não devemos prejudicar as importantes em favor das secundárias, assim como não devemos prejudicar as partes superiores por causa das inferiores. Aquele que cultiva as partes inferiores de seu ser é um ser inferior. Aquele que cultiva as partes superiores de seu ser é um homem superior”.

Nove na sexta posição significa:

A fonte da nutrição.

A consciência do perigo traz boa fortuna.

É favorável atravessar a grande água.

Aqui se descreve um sábio da mais elevada estirpe, do qual emanam todas as influências que provêm alimento aos outros. Tal posição implica em grave responsabilidade. Se ele permanecer consciente desse fato, terá boa fortuna e poderá, confiante, empreender grandes e difíceis tarefas como atravessar a grande água. Tais realizações trarão felicidade geral, para ele e para todos.

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28 Sobrecarga

PREPONDERÂNCIA DO GRANDE.

A viga-mestre cede a ponto de quebrar.

É favorável ter onde ir.

Sucesso.

O peso do grande é demasiado. A carga é excessiva para a força dos apoios. A viga-mestra, sobre a qual todo o telhado se apoia, cede, porque as extremidades que visam à sustentação são muito fracas para suportar o peso. Medidas extraordinárias são necessárias, uma vez que esta é uma época e uma situação também excepcionais. Deve-se procurar o mais rapidamente possível uma saída e então agir. Isso promete sucesso. Pois apesar do forte pesar demais, está no meio, isto é, no centro de gravidade, de modo que não há motivo para se temer uma revolução. Nada se poderá conseguir com medidas violentas. O problema deve ser resolvido procurando-se chegar ao significado da situação de modo suave . Assim a transição a outras condições terá sucesso. Isso exige uma real superioridade, por isso a época da PREPONDERÃNCIA DO GRANDE é uma época excepcional.

O lago sobrepassa às árvores: a imagem da PREPONDERÂNCIA DO GRANDE.

Assim o homem superior não se aflige quando está só e não se deixa abater quando deve renunciar ao mundo. Épocas extraordinárias de preponderância do grande assemelham-se a uma inundação, quando o lago cobre as árvores.Porém, tais condições são passageiras. A atitude correta em tais épocas excepcionais é indicada pelos trigramas: a imagem de Sun é a árvore, que permanece firme mesmo quando está só, e o atributo de Tui é a alegria, que permanece inabalável mesmo quando deve renunciar ao mundo.

Seis na sexta posição significa:

É preciso atravessar a água.

Esta chega a cobrir a cabeça.

Infortúnio. Nenhuma culpa.

Descreve-se aqui uma situação em que as condições excepcionais chegaram ao máximo. A pessoa é corajosa e quer cumprir seu dever apesar de tudo. Isso a conduz ao perigo. A água cobre-lhe a cabeça. Esse é o infortúnio. Porém, não há culpa quando se oferece a vida para que prevaleça o bem. Há coisas que são mais importantes que a própria vida.

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29 Abismal

A água flui ininterruptamente, e chega à sua meta:

A imagem do ABISMAL repetido.

Assim, o homem superior caminha em constante virtude e exerce o magistério.

A água alcança sua meta fluindo ininterruptamente. Ela preenche todas as depressões antes de fluir adiante. O homem superior segue esse exemplo e procura fazer com que o bem se torne um atributo consolidado em seu caráter, e não apenas uma ocorrência ocasional e isolada. Do mesmo modo, o ensino também requer constância, pois só a repetição da matéria permite que o aluno a assimile.

As coisas não podem permanecer constantemente num estado de sobrecarga.

Por isso a seguir vem o hexagrama: O ABISMAL. O Abismal significa um fosso.

O Abismal repetido é o perigo duplicado. A água flui e não se acumula em parte alguma; passa por lugares perigosos e não perde sua confiança. “Você terá o sucesso em seu coração” porque os firmes constituem o centro; “tudo o que fizer terá êxito”, pois o avanço traz realizações. O perigo do céu consiste em não se poder escalar até ele. O perigo da terra são as montanhas e rios, as colinas e alturas. Os reis e príncipes usam os perigos para proteger seus reinos.

os efeitos da época do perigo são verdadeiramente grandes.

Este hexagrama é explicado de duas maneiras:

1) o homem encontra-se no meio do perigo, assim como a água nas profundezas de um abismo. A água lhe mostra como deve proceder: ela flui para adiante e não se acumula em parte alguma; mesmo nos trechos perigosos ela não perde sua confiança. Deste modo o perigo é superado.

O trigrama K´an simboliza também o coração. No coração, a essência divina encontra-se aprisionada no interior das propensões e tendências naturais, correndo, assim, o perigo de submergir nos desejos e paixões, nesse caso também a superação do perigo consiste em manter-se firmemente ligado às suas tendências inatas ao bem. Isso está indicado pelo fato de as linhas firmes formarem o centro dos trigramas.  Com isso, a ação resulta no bem.

2) O perigo serve como medida de precaução defensiva para o céu, a terra e o príncipe, porém nunca é um fim em si mesmo e por isso se diz: “os efeitos da época do perigo são grandes”.

Nove na quinta posição:

a) O abismo não está cheio a ponto de transbordar, está cheio apenas até a borda.

Nenhuma culpa.

O governante do hexagrama, sendo, além de tudo, forte em posição forte, poderia facilmente sentir-se grande e poderoso. Mas sua posição central o impede. Por isso lhe é suficiente apenas sair do perigo. O Comentário sobre a decisão refere-se a esta linha quando diz: “a água flui e não se acumula em parte alguma”.

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30 Aderir

ADERIR.

A perseverança é favorável.

Ela traz o sucesso.

Cuidar da vaca traz boa fortuna.

O obscuro liga-se ao que é luminoso, promovendo assim a claridade deste último. Um corpo luminoso, ao irradiar luz, deve ter em seus interior algo que persevere pois, de outro modo, com o tempo se extinguiria. Tudo o que é luminoso no mundo depende de um elemento ao qual se liga, a fim de poder continuar a brilhar. Assim, o sol e a lua ligam-se ao céu, enquanto os grãos, a grama e as árvores ligam-se à terra. Do mesmo modo a redobrada clareza do homem fiel a seu destino adere ao bem, e pode assim dar forma ao mundo. A vida humana no mundo é condicionada e dependente. Quando o homem reconhece essa limitação e se submete às forças harmoniosas e benéficas do cosmos, ele alcança o sucesso. A vaca é o símbolo da extrema docilidade. Cultivando em si essa docilidade e voluntária dependência, o homem conquista uma clareza suave e encontra seu lugar no mundo.

Seis na segunda posição significa:

Luz amarela. Suprema boa fortuna.

É meio dia. O sol brilha com luz amarela. O amarelo é a cor do meio e da medida.

A luz amarela é, portanto, o símbolo da civilização e da arte em seu apogeu, cuja harmonia está no perfeito equilíbrio.

Seis na quinta posição significa:

Em prantos, suspirando e lamentando.

Boa fortuna!

A vida aqui atinge um apogeu. Nesta posição, se não houvesse uma advertência, o homem se consumiria como uma chama.

Mas se chora e suspira, preocupado em conservar sua clareza, renunciando a toda esperança e temor por reconhecer a

vacuidade de todas as coisas, essa sua tristeza trará boa fortuna. Aqui ocorre uma verdadeira e definitiva mudança de atitude.

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ENTREVISTA COM ALAYDE MUTZENBECHER

Publicada na Revista Frater do Rio de Janeiro, em abril de 2003

Qual seria a origem histórica do I Ching?

O I Ching é o livro mais antigo da humanidade. Podemos dizer que ele contém o texto antes do texto, ou o “arqui-texto”, porque foi escrito em uma época em que não havia escritura na China. Antes da formação da China, em torno de 3000 a.C, havia tribos nômades que transitavam na Ásia Central, que subsistiam da agricultura e portanto, era muito importante saber quando viriam as chuvas e as inundações. Nesta área, as torrentes que jorram dos Himalaias são tão fortes que podem provocar grandes estragos. Por esta razão, os xamãs jogavam carapaças de tartaruga ao fogo para encontrar sinais ou linhas de ação. As linhas “inteiras” representavam maior força, quando as carapaças se rachavam mais, as linhas partidas, indicavam momentos de repouso. Esta foi a primeira origem do Yang e do Yin. Mais tarde, os sábios uniram estas linhas partidas e inteiras, formando os trigramas. É muito interessante notar que nas últimas décadas, os arqueólogos descobriram verdadeiras “bibliotecas de carapaças,” com pequenas anotações dos xamãs, indicando a data em que foram utilizadas. Esta foi a primeira escrita chinesa.
Todas as civilizações têm primeiro uma escrita e depois uma filosofia baseada nesta escrita. Na China houve o contrário: primeiro houve o pensamento da dualidade, Yin-Yang, da linha inteira e partida. Toda a escritura chinesa foi baseada nestas rachaduras e anotações, um processo antiqüíssimo. Existe a opinião, compartilhada por Jung, que, na verdade, trata-se de um arquétipo. Unindo a noção de arquétipo à sincronicidade, poderíamos nos perguntar porque abrimos, em um determinado momento, a folha de um livro e lemos exatamente o que precisamos ler. Isto porque o arquétipo detona no momento me que estamos prontos para ele. A ciência não é capaz de explicar até hoje.
A fusão da dinastia Shang com a dinastia Zhou, por volta de 1.100 a.C. foi uma data histórica muito importante. Os Shang eram guerreiros, mais rudes e detiam a força. A dinastia Zhou era mais culta e voltada para a sabedoria e astrologia. Houve muitas lutas até que esta fusão pudesse ser realizada. O famoso Rei Wen (que na verdade nunca foi coroado) passou 7 anos na prisão, nos quais teve a paciência de juntar dois a dois os trigramas e escrever o texto dos hexagramas. Assim, nasceu o famoso texto do “Julgamento” do Rei Wen, escrito em 1130 a.C. A partir daí, todos os sábios chineses, assim como todas as escolas confucionistas e taoístas e até mesmo Mao Tsé Tung (antes de fazer a revolução!) consultaram o I Ching. Não é à toa que a revolução chinesa aconteceu em 1949, – o hexagrama 49 corresponde à Revolução, no I Ching. Assim também, durante todas as revoltas no decorrer da história da China, e o I Ching foi sempre poupado, escapando de todas as fogueiras. Ele é considerado um livro sagrado, pois aquele que sabe fazer a leitura correta é capaz de captar as energias. Podemos fazer uma leitura moderna das duas energias primárias yin e yang, enquanto linguagem binária, utilizada pelos computadores, pela eletricidade e a própria vida, baseada nos pólos positivos e negativos.
É um mistério saber como os chineses tiveram a intuição desta dialética, pois outros povos muito cultos, como os sumérios e os egípcios, não desenvolveram a dialética das polaridades opostas-complementares yin e yang. A escrita chinesa é utilizada até hoje em seu formato ideogramático. Entretanto, é interessante notar que as outras escritas antigas – os hieróglifos egípcios, por exemplo – há muito já não são mais usadas.

Porque os hexagramas do I Ching se desenvolvem em seis linhas?

Hexa, em grego, significa seis. O hexagrama representa o conjunto de uma polaridade, um conjunto de energias. Para o chinês, a síntese de cada dinâmica é sintetizada por um trigrama. Os oito trigramas seriam como “tijolos de construção”. Dependendo de como estes blocos são colocados, é formada uma imagem. Por exemplo, se colocamos a montanha embaixo e o fogo em cima, temos um fogo que é visto de longe, representado pelo hexagrama 56, que conota o contexto do Viajante. Já se este fogo está embaixo da montanha, forma-se um aconchego, uma aldeia, aonde pode-se criar beleza. Este é o hexagrama 22, a Beleza.

Depois de tantas traduções e versões dadas ao Livro das Mutações- I Ching, qual seria o enfoque mais importante que você procurou dar à sua versão?

Tentei ressaltar a leitura do I Ching através das linhas, quase como numa abstração do texto. Isto me foi ensinado no centro Djohi, em Paris, onde morei bastante tempo. Na realidade, o texto é importante para a pessoa que não conhece as linhas, mas se a pessoa aprende a decodificá-las, vai aprender a lidar com as linhas de sua própria vida, refletindo tudo que se abre e se fecha a cada momento. Elas atuam como impulsos energéticos e a sua captação reflete o momento certo para fazer as coisas. Por exemplo, o trovão tem uma linha yang embaixo e duas yin em cima, ou seja, esta energia “empurra” para cima. Já a montanha tem uma linha yang em cima e duas yin embaixo, portanto ela “freia” o movimento. Esta síntese energética serviu de base para todas as ciências chinesas, como o Feng Shui, a Acupuntura e para as artes marciais. Creio que a função oracular é menos importante do que a dinâmica energética contida em potencial no I Ching

Além de pesquisadora do I Ching e da cultura oriental, você também é antropóloga e estudiosa das sociedades tribais indígenas. Existe algum fio condutor entre estas duas tradições?

Quando voltei para o Brasil, depois de ter morado muitos anos na Alemanha, tinha uma vontade muito grande de que o I Ching fosse traduzido para o português. Finalmente, após ter comprado os direitos autorais, o dono da Editora Pensamento, meu amigo Diaulas Riedel, me pediu que fizesse a tradução, junto com Gustavo Corrêa Pinto. Decidi mudar-me para a França cursar Antropologia Religiosa, que consiste de um estudo comparativo das várias religiões. Durante os dois primeiros anos, o curso dá pinceladas em todas as religiões do mundo e depois escolhe-se uma área de especialização. Eu escolhi a China e tive, como orientador a Kristopher Schipper, considerado como o grande mestre taoista no Ocidente. Ele achou que eu deveria pesquisar alguma cultura do meu próprio continente, e foi assim que me remeteu aos índios guaranis, considerados pelos especialistas franceses como os maiores metafísicos das Américas. Assim, descobri os seus espetaculares textos sagrados. Na Sorbonne, tive a oportunidade de ler textos belíssimos Sufis, dos Vedas, Taoístas e Egípcios, e os textos Guaranis estão à altura em sua beleza e conteúdo – uma coisa que aqui, no Brasil, não sabemos.
O conceito guarani de oguerojerá – traduzido por Helène Clastres como “o desdobrar no seu próprio desdobramento” que existe em nenhuma outra língua. O brilhante pesquisador americano Ken Wilber, sempre fala nos “unfoldings and enfoldings”, que correspondem ao mesmo princípio de expansão e retração que se desdobram continuamente,como sementes crescendo e murchando. Quanto mais entrava em contato com os Guaranis, mais sua maneira de pensar me fascinava.

Como se manifesta este conceito de desdobramento para os Guaranis?

Eles acreditam que tudo na natureza vai se desdobrando. Tudo que foi passado ao homem é produto do trabalho de seus ancestrais que caminharam sobre a terra, num desenvolvimento incessante da natureza. É uma maneira de olhar o mundo muito semelhante à da modernidade; não houve uma criação em sete dias. Para eles houve um desdobrar a partir dos primórdios e, por isso, os guaranis falam sempre da luz e da escuta.
Nas florestas densas, sempre se escuta antes do que se vê. A principal divindade guarani chama-se Ñamandu, sendo que endu significa escuta. Esta seria a Grande Escuta. É imprescindível escutar os cantos, os sons perigosos de animais e as mensagens da natureza.

Qual é o seu principal contato entre os guaranis?
Minha principal informante é uma xamã maravilhosa, atualmente com mais de 80 anos; ela veio andando, a pé, do Paraguai até o Espírito Santo, onde vive atualmente numa aldeia. Esta migração foi liderada por sua mãe, a famosa xamã Tatatiwaretê, já falecida. Esta amizade abre as aldeias guaranis para mim. Geralmente, eles sabem quando estou chegando, pois têm uma percepção energética fantástica, coisa que os antigos chineses também tinham.

Qual seria a razão por trás do fato dos chineses terem conseguido esta percepção energética tão aguçada, enquanto outros povos com tradições espetaculares, como o Vedanta, foram incapazes de fazer o mesmo?

Acho que decorre de sua observação muito detalhada da natureza. É claro que o Vedanta e o Sufismo, por exemplo, também têm elementos de incrível reflexão; porém, sem uma identificação tão refinada com os fluxos da vida. É só através de muita concentração que se logra esta extraordinária percepção; ao contrário do mundo moderno, onde estamos sempre dispersos e, por isto, não percebemos nada. As mães, por exemplo, sabem quando os filhos não estão bem, assim com os verdadeiros casais pressentem quando há algo de errado. Se isto não acontece, é porque alguma coisa não vai bem no casamento. Há um fluxo energético na vida ao qual deveríamos prestar mais atenção, porém de uma forma muito refinada. Esta é a famosa voz do silêncio. Isto também está presente na arte, quando o artista percebe as vibrações do momento e as expressa através de sua obra.

Você percebe qual seria o traço na civilização chinesa que é fundamental para que esta percepção energética tenha sido desenvolvida lá e não em outra cultura?

Aliada a esta observação muito minuciosa dos sábios chineses, são também muito perseverantes e sistemáticos. Quando, por exemplo, as pessoas eram sabatinadas para entrar nas funções públicas, exigia-se que soubessem os cinco clássicos de cor. O I Ching é fundamental; se não se conhece este livro, faltam as bases. Da mesma maneira, os bons sufistas têm de saber o Alcorão de cor. Nós também devemos conhecer as letras, senão não podemos escrever nada. Comprova-se a perseverança deste povo pelo fato de que os chineses começaram com seus ideogramas na remota Antigüidade e continuem usando esta escrita até hoje. É impressionante.

Como você vê o fato de que os chineses, embora tão avançados em termos de observação e sabedoria, adotem uma postura altamente questionável em relação aos seus vizinhos, no Tibet?

Eu não acho que os chineses são tão espiritualizados; os indianos o são muito mais, em minha opinião. Os chineses são, na realidade, eminentemente pragmáticos. Eu acho muito difícil que o I Ching tivesse surgido na Índia, por exemplo, pois eles são basicamente transcendentais em sua personalidade cultural e não perderiam tempo escrevendo um código. Eles querem chegar em outro lugar, em algum Samadhi. O chinês é, por outro lado, muito prático, querendo saber as questões das quais dependem a sua vida e a subsistência de seus filhos; por isto é necessário o aprimoramento prático. O Cristianismo, da mesma forma, redigiu uma escolástica especulativa, como constatamos nos textos de São Tomás de Aquino, repletos de conjecturas metafísicas. Na China, este desdobramento seria impossível, pois sua atenção está voltada para o aqui e o agora. Por isto, o texto das Mutações, que é o livro mais antigo, é usado de maneira prática; se você tem um problema de qualquer ordem, até financeira, pode perguntar como fazer para resolvê-lo!

Você percebe alguma influência do Taoísmo no I Ching?

Os taoístas costumam se referir ao I Ching como um livro taoísta; porém o I Ching existia muito antes do surgimento do Taoísmo organizado. Isto seria o mesmo que dizer que o Judaísmo é Cristão; isto é impossível, pois o Cristianismo surgiu muito depois. O I Ching, em suas primeiras linhas, existiu numa época de sociedades tribais e nômades, onde já existiam xamãs e rituais que anteciparam o taoismo que, só foram ordenados de forma concreta principalmente a partir de Lao Tsé, que viveu por volta de 600 a.C; tendo sido contemporâneo de Confúcio, que trabalhou muito o I Ching. Entretanto, as linhas do I Ching são muito anteriores a ambos. Por isso, não o considero como um livro confucionista nem taoísta, porém como a base de ambos. A escola confucionista teve o grande mérito de ter ordenado toda a informação, pois Confúcio e seus discípulos eram muito sistemáticos. O Taoísmo é mais metafísico. Acredito que se não fosse por Confúcio, o I Ching não teria chegado a nós.

Como você vê a atração que as sociedades ocidentais, impregnadas de um pragmatismo ansioso, têm demonstrado em relação ao I Ching, em contraste com o pragmatismo oriental que foi o seu berço de origem?

Em minha opinião, o pragmatismo americano é muito parecido com o chinês. Os americanos chegaram onde chegaram porque são pragmáticos e trabalham com os pés bem plantados na terra. O I Ching começou a ter sucesso no Ocidente nos EUA. Foi a partir da tradução de C. Baines para o inglês, que teve um prefácio de Jung. Sem saber como fazer um prefácio para um arqui-texto como o I Ching, Jung resolveu perguntar ao próprio I Ching se deveria realmente escrever este texto. O prefácio acabou sendo, então, a descrição desta consulta oracular, brilhantemente, interpretada por Jung. Seu prefácio talvez seja o que há de mais valioso na tradução de R. Wilhelm. O grande sucesso do I Ching no Ocidente começou a partir da versão americana.

Uma coisa que você coloca em seu livro seria essa contraposição entre a noção de oráculo para o chinês e para o Ocidental, com toda a herança grega da existência de um destino. Você acha que este sucesso é devido também a uma certa deturpação de se querer controlar o futuro, ou você acha que há uma sintonia com a origem, com a mensagem original?

O sucesso é o fato de ser um livro pragmático e não um livro que é lido como romance e depois é posto de lado, pois você pode sempre consultá-lo. Se você entende a linguagem do I Ching e o seu mecanismo, você pode fazer perguntas e ele sempre responderá. O que acontece é que, no ocidente, às vezes se encara o oráculo como uma bola de cristal. Porém, na verdade, ele se refere à linguagem energética daquele momento. Fazer uma consulta de I Ching é como tirar o pulso de alguém na acupuntura. Os doze meridianos são as seis linhas do I Ching, sendo que cada linha tem sua faceta yang ou yin, somando 12. Então, é como se tirássemos o pulso da situação numa leitura do presente. O médico vai interpretar os sintomas que estão sendo descritos; cabe a você seguir as suas indicações, ou não. O I Ching interpreta o seu presente, descreve a situação que está acontecendo no momento e recomenda uma maneira de agir. A consulta pressupõe uma pessoa adulta, ou seja, alguém que sabe o que quer. Na França, onde morei vários anos, um rapaz veio consultar-se e perguntou se uma moça gostava dele. A isto o I Ching não poderia responder, porém sugeri que ele perguntasse o que ele poderia fazer para que a moça se apaixonasse por ele. A boa pergunta é aquela que busca a melhor estratégia de ação.
Sun Tzu, o maior estrategista da China, em seu livro “A Arte da Guerra”, baseou-se no I Ching. Este conhecimento é tão moderno e prático que até o Felipão, durante a última Copa do Mundo, tinha sua cópia debaixo do braço. Você deve saber quando avançar e recuar, sabendo reconhecer a natureza energética da situação. Há momentos que, se esta for muito pesada, não há nada a fazer. Ao invés de dar murro em ponta de faca deve-se aguardar o momento correto da ação, fazendo um mapeamento energético, para atuar de modo eficiente.

A respeito da formulação da pergunta ao oráculo, você diria que é correta a afirmação de que a boa pergunta contém dentro de si a resposta?

Afirmativo.. A formulação simples suscita uma resposta simples. Se a formulação é complicada, a resposta pode se complicar e talvez você não a entenda bem. Quanto mais simples, melhor. É importante sempre colocar-se dentro da situação: “o que posso fazer para…”, “como agir…”. Por exemplo, eu não gosto de meu emprego e então pergunto: “como devo agir para encontrar um emprego melhor”. A melhor maneira de formular a pergunta é tentar montar uma estratégia. O consulente deve considerar-se como um general diante de uma batalha que ele quer ganhar. Como fazer para ganhar esta parada? É uma questão de tática e estratégia, no macro e no micro.

Qual seria a relação entre o I Ching e o Feng Shui?

A partir do fato de que a distribuição dos trigramas está contida no I Ching, resultando no famoso baguá, todo o Feng Shui está baseado nele. Se o I Ching mede a pulsação vibratória de uma circunstância, ele também poderá medir a pulsação energética de um ambiente ou de uma pessoa. Um bom acupunturista, a partir da leitura dos três níveis do pulso, é capaz de fazer um diagnóstico acertado. A partir deste conceito básico, começou-se a buscar o melhor local adequado para se morar. Nunca passou pela cabeça de um chinês construir uma casa sem primeiro consultar com um xamã a respeito da melhor energia de um lugar e sobre os meridianos da terra. Por exemplo, construir uma casa em cima de uma montanha é ruim, pois tem muito vento e a energia se dispersa. Construir embaixo também não é aconselhável. O ideal é construir a casa no meio. Da mesma maneira, não é bom morar no primeiro andar de um prédio e nem no último andar, e sim no meio. Os melhores consultores de Feng Shui são aqueles que estudam o I Ching, pois isto faz com que eles aprimorem muito sua captação das energias.
Um exemplo de um péssimo Feng Shui é Brasília. Num país com o maior caudal de águas do mundo, construir a capital em lugar seco é absurdo! Até o lago artificial foi construído no lugar errado. Quando a capital mudou-se para lá, o Brasil endividou-se terrivelmente e, depois de Juscelino, houve a renúncia de Jânio Quadros seguida da era da ditadura militar, com torturas e coisas nunca vistas antes no Brasil. Desde então, o Brasil, que poderia ser tão rico quanto os Estados Unidos, está embotado em Brasília. Acho que se deveria levar o melhor mestre de Feng Shui do mundo para tentar consertar esta situação! Outro exemplo é da Casa Rosada na Argentina, que não poderia estar em lugar pior, pois era um antigo forte, situado sobre um rio barrento, em um lugar muito pouco auspicioso. Portanto, é muito pouco provável que algo bom venha de lá!
Um exemplo de um Feng Shui perfeito é a Cidade Proibida chinesa. Quando eles a construíram, era uma planície; entretanto, para um bom Feng Shui, é preciso que exista uma montanha atrás, de preferência preta, pois ela protege. Os chineses mandaram buscar carvão para erigir a montanha protetora e construíram um canal em curvas sinuosas ideais. É incrível que, depois de tantas dinastias e revoluções, a Cidade Proibida continua lá, perfeita e maravilhosa. Dizem os mestres chineses que um Feng Shui perfeito faz com que a construção nunca desabe, pois as energias certas foram colocadas nos lugares acertados.

Você diz em seu livro que a leitura deve ser feita, num primeiro nível, interno, e só depois para a situação externa. Como isto funciona?
O I Ching cresce como se fosse uma árvore, sempre de baixo para cima. As três primeiras linhas refletem a pulsação energética que acontece dentro de você. Geralmente, quando a resposta tem uma linha mutável que cai no trigrama interno, (ou seja, nas três linhas debaixo), isto está relacionado com algo que está acontecendo dentro de você. Talvez, então, você não esteja conseguindo este emprego por uma atitude sua e não por falta de oportunidade.

Você é o agente e deve encarar a situação de frente, pois você é o centro da situação.

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Ripple Effect

Ripple Effect

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Alayde Mutzenbecher

Entre todos os aspectos possíveis de abordagem do I CHING, a perfeição da sua estrutura interna talvez seja o fator menos conhecido. No Ocidente, é quase desconhecida essa rede de comunicações pulsante que se reparte de modo magistral como uma rosa de ventos, pelas oito direções do espaço.

Pois a construção primordial do I CHING mostra o posicionamento dos oito trigramas que compoem o Bagua, de modo extremamente inteligente, claro e efetivo. A repercussão dessa dinâmica energética atua nos espaços habitados pelo homem através da arte do Feng Shui, assim como no corpo humano, através da Medicina Tradicional Chinesa, e também nos movimentos harmoniosos e efetivos ensinados nas melhores escolas das Artes Marciais.

O entrelaçar das oito forças primordiais que constituem cada um dos 64 hexagramas implicam conotações de uma abrangência insuspeita, abrindo novos caminhos para o estudo da energia contida no Livro das Mutações. Esta estrutura portadora de CHI distribui as energias e as disseminam no espaço, incluindo partes visíveis e partes subjacentes que não são detectadas pela maioria das pessoas. Por isso, as melhores escolas de Feng Shui e de Acupuntura do Oriente não aceitam discípulos que não tenham um bom conhecimento do I Ching.

Sobre esta construção energética impressionante foram escritos livros inteiros. Porém, aqui evocamos apenas alguns dos seus aspectos básicos.

As duas energias iniciais, – o Puro Yang ou Criativo, representadas pelo hexagrama número 1, e o Puro Yin ou Receptivo, simbolizado pelo hexagrama número 2 – formam o par que, interligado em suas várias manifestações e múltiplas facetas, gera todas as outras energias.

As duas dinâmicas que terminam a primeira parte do Livro das Mutações, – a dupla Água e o duplo Fogo – encerram as primeiras trinta etapas de aprendizagem energética. Assim como o par de energias inaugurais, são opostas E complementares entre si. É a mesmo entrelaçar de Água e Fogo que também termina o Livro das Mutações, na Completude retratada no hexagrama número 63 (Após a Conclusão) e na Incompletude aparente no hexagrama número 64. Em ambos os casos, Água e Fogo voltam a interagir entre si, porém, agora de modo diferente, abraçados.

Essas quatro energias primordiais – Céu e Terra, Água e Fogo – são também as que formam o eixo vertical nas duas Ordens dos Céus. Na Ordem do Céu Anterior, estas quatro dinâmicas constituem os dois eixos – o vertical e o horizontal -, cada qual apontando para uma direção cardeal – norte, sul, leste e oeste. E na Ordem do Céu Posterior, o eixo vertical é ocupado pelo Fogo (acima) e pela Água (abaixo).

A dinâmica que move este surpreendente caleidoscópio que é o I CHING ou Clássico das Mutações, onde todas as energias estão sempre a girar como numa surpreendente roda gigante, desdobram-se em metamorfoses constantes que constituem o próprio da vida. Todos os seres são movidos por essas forças impalpáveis, a cada instante.

Neste vai-vem que se exaure ao se exprimir ou, que ao expressar-se, se exaure, a energia é esteira do espaço, é fibra do estofo do tempo. O verdadeiro tempo no pensamento chinês surge no instante exato em que as espirais do CHI impregnadas de forças invisíveis e impalpáveis se entrelaçam, tecendo a vida a partir do eixo central de cada ser. E este Vazio, este “nada-tudo” que clama, age o tempo todo, ao centro de todas as nossas trajetórias.

A estrutura interna das seis linhas de cada hexagrama também se entrelaça e aponta significados: podemos atribuir às duas primeiras linhas de cada hexagrama à função Terra, e as duas últimas linhas – a quinta e a sexta -, à função Celeste. E as duas linhas do meio de cada hexagrama – a terceira e a quarta – se referem à função humana. O homem seria então, e por definição, aquele que caminha entre Céu e Terra. E o “homem superior”, ou seja, a parcela mais inteligente, mais lúcida e generosa de cada ser humano é aquela que sabe harmonizar com equilíbrio e desenvoltura, as energias que o envolvem, – as concretudes da realidade terrestre com os impulsos criativos invisíveis procedentes do âmbito celeste.

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